19.4.18

A escravidão da absoluta certeza.

Já em tempos, escrevi algures esta conclusão banal: a ignorância é atrevida e enquista a sociedade.
No mundo frenético, urgente, que nos rodeia, a dúvida parece arredia. Normalmente os ignorantes são os assertivos, os tais sempre cheios de certezas.
E nada é mais pernicioso do que viver sentado em verdades absolutas. Uma realidade acabada, redonda não só deve cansar, como apaga a linha do horizonte. Pelo contrário, a dúvida liberta.
As redes sociais estão a contribuir para a ditadura das tais verdades.
E isto veio a propósito da leitura do excerto que se segue sobre a escravidão da absoluta certeza.

«A partir do momento em que formulo uma dúvida, ou mais exactamente: a partir do momento em que sinto necessidade de formular uma, experimento um bem-estar curioso, inquietante. Ser-me-ia de longe mais fácil viver sem qualquer vestígio de crença do que sem qualquer vestígio de dúvida. Dúvida devastadora, dúvida nutritiva!»
(E. M. Cioran, Do Inconveniente de Ter Nascido, Letra Livre)

1.4.18

Ele há coisas...

...que me metem espécie.
Por um lado, pagamos, e não bufamos, os contínuos desaires da banca e continuamos à toa sem saber quem recebeu a mais, quem desviou, quem geriu, quem fez vista grossa, alguém que seja responsabilizado! Por outro lado, temos um tal Antonio Pedro Silva, administrador dos CTT, que não só acha que uma loja de construção civil pode ter um posto de correios, ou que uma junta de freguesia possa dispor também de um posto e que, por via protocolar, haverá uma contribuição financeira que poderá pagar totalmente ou parcialmente o funcionário. O dinheiro tudo pode.
Servir as populações até aplaudo, mas não tardará, que em caso de queixas e reclamações, ficaremos a saber sobre quem cairá o ónus odioso.
Numa entrevista, o dito administrador ainda teve cara para dizer que de momento não sabiam quanto é que a empresa tinha poupado com o fecho das lojas, que só lá para o final de Abril e que seria algo que requeria maturação.
Esta resposta dada ao jornalista aponta para dois aspetos: a empresa está a ganhar tempo para apresentar valores por entre rodriguinhos e malvasias, tudo embrulhado em boas intenções ao serviço do povoléu. Ou demonstra que fechou postos de correios a olho nu, sem acautelar necessidades e direitos das populações, em suma, sem estudo prévio de custos e ganhos!
 Isto é para acreditar?
Deve ser, porque um país quase inteiro que acredita que um homem morreu e ressuscitou ao terceiro dia e que esse mesmo homem nasceu do cruzamento de uma mulher virgem com uma pomba, acredita em tudo. Sobretudo em milagres.

24.3.18

A bota não bate com a perdigota

O título deslizou debaixo dos meus olhos "A cultura da ignorância" e logo cliquei no texto. Ávida, à medida que o lia mais me identificava com a mensagem crítica nele exposta.
Ainda ontem estive com um par de amigos a discutir como a ignorância está a sair bem mais cara que a cultura, como há muito concluiu Derek Bok, e as redes sociais são a grande amostra disso. Ali vaza tudo, ninguém sabe nada mais do que ninguém e numa confusão entre democracia e liberdade opinativa predomina o tal "achismo", diluindo-se, assim, o conhecimento de referência.
E, nem de propósito,  dei hoje com este texto. Haverá já algum algoritmo telepático?
Finda a leitura, busquei pelo autor. Caiu-me o queixo. Como é que alguém que inicia a sua crónica assim:
"Nunca foi tão perceptível, a falta de mundo e de preparação e solidez cultural, da classe dirigente portuguesa. A ortodoxia dos números é a cultura inculta de que alguns se alimentam." esconde este esqueleto no seu armário?
Sim, trata-se de Feliciano Barreiras Duarte.

19.3.18

Caros jornalistas, vacas sagradas?

É do saber popular que quem não se sente não é filho de boa gente e, assim sendo, é natural que os/as jornalistas andem indignados com as palavras de António Costa. É natural por que razão? Porque foram criticados na vossa nobre função e que ultimamente nem é  função, nem é nobre. É evidente que estão no vosso meio, ou seja, têm à mão todas as possibilidades de virem a terreiro atacar e defender-se e usando a velha arma que se adapta a qualquer ideologia governativa: aqui d'el rei vem aí a censura!
Corporativismo?!
Sempre que uma classe profissional sai à rua em protesto, e mesmo depurada de exageros e tiques, logo os media trazem à baila um termo que lhes é muito querido: o corporativismo. Mas pintado de cores negativas, dando-lhes quase um ar de seita organizada com desígnios inconfessáveis.
Fui docente durante quase 4 décadas e senti essa visão negativa na maioria das vezes, mesmo quando muitoe de nós não nos revíamos nas forças sindicais. Ainda noutro tipo de abordagens ligadas à escola sempre me deparei com uma ignorância confrangedora.
Todos os jornalistas? Não, mas, na minha cultura jornalística, são  muito poucos os bons jornalistas.
Ressalto que não estou a ajuizar pela bitola da política,  ajuízo pelas informações pouco ou nada investigadas e que, muitas vezes, surgem à bolina das espumaças que bóiam nas redes sociais. Notícias imprecisas, falsas e não  desmentidas posteriormente, notícias requentadas, amalgamadas...até nos assuntos mais comezinhos. O jornalismo de investigação é quase nulo.
E para que a forma não fique atrás da conteúdo, também  ela se apresenta à maneira. Adequada. Atropelos de toda a espécie: sintaxes manhosas, erros  ortográficos, erros morfológicos, erros semânticos, pontuação inadequada...Dizem que acabaram com os revisores/editores de textos, mas isso justifica tanta ignorância da parte de quem faz da escrita a sua profissão?
Senhores jornalistas, sejam responsáveis na vossa função de informar, tratem bem a língua portuguesa e certamente ninguém questionará a vossa liberdade de expressão, sobretudo porque um povo bem informado é um povo culto. É um povo livre.

Li que o jornalista Ferreira Fernandes iria ser o novo diretor do Diário de Notícias, o que me alegrou bastante porque o considero um dos maiores jornalistas da atualidade. E se escreve bem!


28.2.18

Não é bonita, mas sabe bem!

A semana da lampreia. Clientes certos nesta data, lá fomos nós marcar presença. No concelho de Penacova vários são os restaurantes que aderem a esta iniciativa anual  que atrai muitos forasteiros. Ao longo dos anos fomos experimentando os diferentes restaurantes que se especializam neste manjar,  que me desculpem os que detestam, e este ano fomos ao Casimiro que fica em Silveirinho, ali quase encostado à ponte sobre a Barragem da Aguieira.
O arroz, mesmo sem a lampreia, é divinal!
A oferta é a mesma em todos os restaurantes: arroz de lampreia, acompanhado com grelos cozidos e um pastel de Lorvão ou uma nevada de Penacova.  22 € cada dose, cujo preço triplica fora da Semana gastronómica.







25.2.18

Há algo que está a escapar-me...

A Autoridade Tributária usou os e-mails dos contribuintes - fornecidos para notificações fiscais - a avisar:

Antes que seja tarde, antes que o atinja a si, limpe o mato 50 metros à volta da sua casa e 100 metros nos terrenos à volta da aldeia.” Esta é uma das primeiras frases que se podem ler no email que a Autoridade Tributária (AT) está a enviar aos contribuintes, pedindo-lhes que limpem os terrenos.

Se não o fizer até 15 de março, pode ser sujeito a processo de contraordenação. As coimas podem variar entre 140 a 5 mil euros, no caso de pessoa singular, e de 1500 a 60 mil euros, no caso de pessoas coletivas”, acrescenta o Fisco.» [Observador].


E, pelo que leio por aí, tem sido um alvoroço porque a AT teria cometido um abuso ao usar os endereços de e-mail com um outro fim.
Rematado disparate, a meu ver. Numa altura em que há já tanta informatização estes pruridos são extemporâneos. As informações / avisos serão mais céleres e abrangentes. Tantos senões com este "abuso" por parte das instituições ministeriais, até parece que não são credíveis e " devemos ter cuidado e saber a quem damos o nosso endereço de e-mail",  li eu algures.
Acho bem que o governo central, local e outro usem o correio eletrónico para comunicar com os cidadãos. 
Obtermos informações pelos jornais que optam por opinar, em vez de informar, ou esperar que os CTT nos façam chegar sã, salva e atempada a correspondência, preferimos o quê? 
Virgens ofendidas e infoexcluídas não gostam?
Habituem-se!






18.2.18

Bipolaridades

1. "Em três anos, desde que o Governo PSD/CDS-PP tomou posse, o Estado perdeu cerca de 80 mil funcionários públicos. Para 2015, está previsto o despedimento de mais 12 mil pessoas.
A redução de funcionários públicos foi o dobro do que a troika exigia e que era uma redução média de 2%, mas em três anos a Administração Pública perdeu, no total, 79 898 trabalhadores, o equivalente a 11%."

Isto foi notícia dos jornais no início do ano de 2015.
Como resultado desta redução acéfala,  verifica-se agora falta de pessoal na Saúde, Educação, Polícias e noutros setores da administração pública. 
Os mesmos que defenestraram 79 898 funcionários públicos andam agora a criticar o governo pela degradação dos serviços públicos.  E se o governo tenta resolver a situação lemos, por exemplo, no Dinheiro Vivo, na rubrica sobe&desce, e António Costa com a seta descendente: 
"Há vários anos que um objetivo dos governos passa por diminuir o número de funcionários públicos. Mas a tendência foi quebrada pelo governo de António Costa em 2015. Desde a entrada em funções do atual executivo que há mais 10 mil funcionários públicos com crescimento consecutivo nos últimos três anos."
Incrível! 
Será que Escolas, Hospitais, Polícias, etc, foram privatizados? Afinal quem trabalha nesses setores, que tão fustigados têm sido pelo deficiente serviço prestado exatamente por falta de recursos humanos?
Anda tudo em crise de bipolaridade?

2. Cavaco Silva voltou à ribalta e parece aquela garrafa do vinho do Porto cuja rolha entrou de lado, deixou entrar ar e o vinho azedou.
A idade e a experiência de quem liderou os destinos do país, e ainda atingiu o posto máximo, deviam, a meu ver, moldar um caráter digno, discreto, equilibrado, com sentido de estado, mas o homem não larga aquele seu pendor coscuvilheiro que o torna uma coisa rastejante, viscosa. Esta malformação nada tem que ver com ideologias políticas, tem que ver mesmo com o caráter,  ou antes a falta dele.


“O nosso caso é sui generis. Esta solução [de governo] teve a oposição muito forte no passado dos dirigentes socialistas com quem trabalhei — todos! Um dia contarei o que eles me disseram sobre o Bloco de Esquerda e o PCP”
Cavaco Silva em recente entrevista ao Expresso.
A última observação afere o espírito mesquinho, de falta de dignidade e de sentido de Estado. Coisa mais rasteirinha!



16.2.18

Rituais anacrónicos

Acabei de ler uma troca de ideias ali num blogue que me fez mergulhar numa reflexão.
Sobre a quaresma.
Alguém diz que na quarta-feira de cinzas e sextas-feiras tenta sempre "cumprir" com a refeição de peixe, embora nem seja muito ligada a essas coisas, mas como a mãe "cumpria", gosta de seguir o que ela lhe ensinou.
Logo outra pessoa responde que nada tem a ver com a religião, mas que "cumpre" sempre unicamente com um sentimento de libertação pessoal.
Não vou tecer considerações sobre fé, ou crença, porque cada um toma a que quer, o que me chama a atenção,  e desde muito cedo, são certos rituais da igreja católica que se entranharam de tal maneira na sociedade que se tornaram dogmas. Inquestionáveis.  A ideia do cumprir, a ideia da tradição,  a ideia de que comer carne é pecado e até, pasme-se,  comer peixe pode ser um sentimento de libertação pessoal.
Dizia a minha avó que antigamente as pessoas pregavam as salgadeiras - arcas de madeira onde guardavam as carnes salgadas dos porcos, fonte de sustento familiar - para que não caíssem na tentação de comer carne. E também me contava que quem pagasse a côngrua ao padre já podia comer carne. Exceto às sextas-feiras. Imaginemos aqueles tempos de grande pobreza, onde só os ricos podiam comer carne porque acertavam contas com a igreja...
Desde cedo que estes e outros rituais me revoltavam pela hipocrisia, pela manipulação descarada, bem longe, ainda, de concluir que a bíblia é uma metáfora bem urdida por homens espertos e capaz de domar multidões.
No século XXI, permanece a ideia de obrigação, a ideia de cumprimento por tradição,  a ideia de que a abstenção da carne é libertadora porque implica sacrifício.
Algo mudou: hoje o peixe é bem mais caro do que a carne.


9.2.18

Publicidade pop-up

É uma praga! Das páginas mais normais e insuspeitas que pesquisemos brotam anúncios que nem pipocas, vindos do nada. Nas páginas dos jornais predomina a publicidade a automóveis , fica o carro a ocupar o ecrã durante uns segundos antes de surgir o X. Depois há outros anúncios que não arredam pé enquanto não  se abrir a página. Já para não falar nos anúncios sobre como aumentar o pénis, ou tratar os panarícios, ou saber os truques para parecer 30 anos mais nova, ou conhecer as cinco melhores posições para atingir mais rapidamente o orgasmo. E tudo documentado com copiosas imagens.
Normalmente, quando começam abrir janelas pop-up desisto logo de tentar ler o texto que "jaz" por detrás.
Uma seca.
O mundo da publicidade procura, obviamente, explorar diferentes suportes para promover marcas.